Mães

Você foi sitiada por hormônios,
novos números de manequim,
espinhas,
estrias,
inchaço,
flacidez e cicatrizes

Metade do tempo você é estranheza, a outra metade deslocamento
Você não parece você,
exceto pelo brilho no olhar e esse jeito teimoso de continuar,
à revelia do caos que impera e de tudo que desmorona

Talvez sua pele não seja mais a mesma
e esse leite que escorre e molha blusas
faz com que você odeie quem se tornou
Até seu nariz tomou outra forma, seus seios aquiesceram à força da gravidade e à sucção
E você provavelmente já tenha se dado conta de que seu mamilo estica tanto,
dobrando de tamanho, como um elástico na boca do bebê

É p a v o r o s o
(como algo tão delicado tenha se transformado numa chupeta calibrosa de carne), capaz de selar a paz na faixa de gaza, no meio do shopping, no busão

Não, esse corpo nunca mais será o mesmo
E ISSO VAI DOER.
Durante um tempo você será a estrangeira de si mesma, a indesejada
Será que essa mulher chegou pra ficar?
É provável que sim.

Esse corpo-cidade no qual você habita, se tornou sua Bagdá,
Bombardeada por todos os lados,
Irreconhecível
mais diferente ainda por dentro
Sua subjetividade escorre entre os dedos.
O que sobrará após tanta estranheza?

Perdida em seus novos achados, emergência em se encarar de frente
É hora de reconstruir,
Reconhecer
e aprender a ver a beleza da resistência depois que tudo mudou de lugar

a potência toda que você ganhou na caminhada
de ir ao encontro de si mesma
se reflete em novos tratados de amor,
necessários acordos de paz com o espelho, sabedoria em aceitar o novo.
valorizar cada cicatriz.
Você só chegou até aqui graças a elas, lembra?

Eu ouvi dizer que aquela Bagdá,
no coração do caos do Iraque, margeada pelo rio Tigre
está mais interessante do que nunca.
E que quem conhece quer se mudar de vez pra lá.
Há energia transformadora em todos os cantos.

Texto: Ingrid Thomaz

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